Após mais de três décadas de deslocamentos sucessivos das cenas abertas de uso de drogas pela região central da capital paulista, o Governo de São Paulo consolidou, em maio de 2025, o esvaziamento definitivo da Cracolândia.
A desocupação da rua dos Protestantes, último ponto de concentração do fluxo de usuários, marcou o rompimento da lógica do crime organizado e o encerramento de uma política baseada apenas na dispersão territorial, dando lugar a uma atuação integrada entre segurança pública, saúde e assistência social.
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À frente do tema desde 2023, o vice-governador Felício Ramuth detalhou a estratégia do Governo de São Paulo nesta quarta-feira (13), em encontro no centro da capital que marcou o primeiro ano sem a maior cena aberta de uso de drogas do estado.
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“Há um ano, São Paulo começou a virar a página de um problema que marcou o centro da capital por mais de 30 anos”, disse o vice-governador. “A Cracolândia deixou de existir porque houve coragem para enfrentar o crime organizado, ciência para implementar políticas públicas eficientes e determinação para não desistir. Hoje, São Paulo mostra que é possível recuperar territórios, devolver dignidade às pessoas e enfrentar problemas históricos com trabalho sério e coragem.”
Segundo ele, a política implementada representou uma mudança de paradigma, substituindo a ação individual e fragmentada por uma política estruturada, além de trocar a lógica de dispersão para a de desarticulação do ecossistema do crime e de ausência do Estado para presença contínua do Estado. “Mais do que o fim do território, a gente acabou com aquela lógica daquele sistema que estava implementado”, afirmou.
Trabalho integrado
A estratégia adotada pelo Estado foi estruturada a partir de ações simultâneas para desarticular a infraestrutura do tráfico, ampliar a presença permanente das forças de segurança e criar uma rede contínua de acolhimento, tratamento e reinserção social para dependentes químicos.
O modelo, com a participação da prefeitura da capital, reuniu operações policiais, monitoramento por tecnologia, ampliação da rede hospitalar, criação do Hub de Cuidados em Crack e Outras Drogas e a criação dos Complexos de Casas Terapêuticas, um novo modelo metodológico e de cuidado em ambiente protegido, onde cada complexo é composto por 4 casas. Somou-se a essas inovações a rede já existente de Serviços de Acolhimento Terapêutico (SATs) híbrido e comunitário (executado por Comunidades Terapêuticas legalmente constituídas).
Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), os roubos nos 3º e 77º Distritos Policiais, responsáveis pela região dos Campos Elíseos e Santa Cecília, caíram 70% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2023. Foram 881 ocorrências neste ano, ante 2.905 casos há três anos. Nove dos 11 meses posteriores ao fim das cenas abertas de uso de drogas registraram os menores índices equivalentes da série histórica para roubos na região.
Em 2022, quando a área ainda concentrava grande fluxo de usuários e intensa atuação do tráfico, foram registrados 9.204 roubos — o maior número desde o início da série histórica, em 2001. Em 2025, já durante o processo de desmonte da estrutura criminosa, o total caiu para 3.366 ocorrências, o menor patamar já registrado. A redução foi gradual: os roubos passaram de 9.204 casos em 2022 para 8.019 em 2023, e depois para 4.492 em 2024.
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As ações de segurança envolveram reforço do policiamento ostensivo, ampliação do efetivo policial e uso de tecnologia. Desde 2023, mais de 400 policiais militares foram incorporados ao patrulhamento permanente da região central, elevando o efetivo local para mais de 2 mil agentes. O policiamento também passou a contar com 1,3 mil vagas de Atividade Delegada.
A estratégia foi reorganizada para atingir a infraestrutura do tráfico e reduzir a funcionalidade do território para o crime. Operações conduzidas pelas polícias Civil e Militar passaram a focar hotéis, pensões, ferros-velhos, cadeias logísticas e estruturas utilizadas pelo tráfico de drogas. As investigações resultaram nas operações Downtown e Salut et Dignitas, voltadas à desarticulação da base econômica da atividade criminosa na região.
Entre as ações implementadas, a Operação Resgate teve como foco combater o anonimato nas cenas abertas de uso. Em 21 fases, a força-tarefa realizou identificação sistemática de frequentadores com apoio de tecnologias como câmeras do programa Smart Sampa, do sistema Muralha Paulista e do aplicativo Muralha Connect.
Ao todo, foram realizadas 13.938 abordagens, com 5.173 pessoas qualificadas e 4.899 identificadas por CPF. A operação permitiu localizar pessoas desaparecidas, identificar procurados pela Justiça e indivíduos em descumprimento de medidas cautelares, além de subsidiar as áreas de saúde e assistência social na individualização dos atendimentos.
Outra frente foi a Operação Corte Zero, criada para retirar de circulação instrumentos perfurocortantes utilizados em roubos, agressões e conflitos entre frequentadores das cenas abertas de uso. Entre 2023 e 2025, foram realizadas 235 operações, com apreensão de 29.994 objetos.
A ofensiva policial na região também resultou em 5.051 presos e apreendidos por tráfico de entorpecentes entre janeiro de 2023 e novembro de 2025 na área da 1ª Seccional. No mesmo período, os registros de furtos e roubos nos distritos da região apresentaram redução acumulada, com 20,9 mil vítimas a menos.
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Atendimento contínuo em saúde e assistência social
Segundo o vice-governador Felicio Ramuth, o trabalho do Governo de São Paulo continua após o fim da Cracolândia com ações permanentes de monitoramento e abordagem de pequenos grupos de usuários de drogas em diferentes regiões da capital. “Equipes seguem realizando abordagens sociais e oferecendo encaminhamento para atendimento e acolhimento exatamente como a gente fez na rua dos Protestantes”, disse. O cruzamento de dados dessas abordagens com informações das unidades de atendimento do Estado apontou que apenas cerca de 15% das pessoas identificadas já haviam passado pela antiga cena aberta de uso.
Ainda segundo o vice-governador, a atuação do Estado permanece baseada em presença contínua das forças de segurança, monitoramento territorial e manutenção da rede de atendimento social e de saúde.
Na área da saúde, o Governo de São Paulo implantou em abril de 2023 o Hub de Cuidados em Crack e Outras Drogas, estrutura criada para funcionar como porta de entrada para urgência, emergência e encaminhamento especializado de dependentes químicos. O equipamento organizou uma linha de cuidado integrada, envolvendo abordagem de rua, acolhimento, desintoxicação e reinserção social.
Desde a criação do Hub, foram realizados 39,3 mil atendimentos e 34.689 encaminhamentos para tratamento especializado. Segundo balanço da Secretaria da Saúde, nove em cada dez pacientes atendidos foram direcionados para continuidade do tratamento em hospitais, comunidades terapêuticas e outros equipamentos de saúde. A rede hospitalar referenciada ao Hub conta atualmente com 748 leitos especializados.
O Governo do Estado também ampliou a estrutura de acolhimento das Casas Terapêuticas. Desde 2023, foram implantados 14 complexos com quatro unidades cada, totalizando 630 vagas entre municípios da Grande São Paulo e do interior. As unidades atendem pessoas com transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas e histórico de situação de rua, com acompanhamento multidisciplinar dividido em quatro fases: Acolher, Despertar, Transformar e Caminhar.
Desde janeiro de 2023, 1.368 pessoas foram acolhidas nas Casas Terapêuticas. O serviço atua de forma articulada com os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), assistência social e rede de saúde, incluindo acompanhamento após a conclusão do acolhimento para prevenção de recaídas. As unidades estão instaladas em municípios como São Paulo, Guarulhos, Osasco e São José do Rio Preto, com expansão prevista para São Vicente, Marília, Santo André e Ribeirão Preto. O investimento estadual já supera R$ 62,7 milhões.
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Além do acolhimento terapêutico, a política estadual passou a incluir ações voltadas à reinserção social e reconstrução de vínculos. Os acolhidos recebem apoio para retomada dos estudos, inserção no mercado de trabalho, educação financeira e fortalecimento das relações familiares e comunitárias.
O Governo de São Paulo também estruturou iniciativas preventivas, como o programa Espaço Prevenir, voltado à prevenção ao uso de drogas e à violência entre crianças, adolescentes e famílias. A proposta integra saúde, assistência social, educação e segurança pública em ações permanentes de prevenção e orientação.
Entre os novos projetos de requalificação do centro em andamento está o Novo Centro Administrativo do Estado de São Paulo, que reunirá estruturas hoje distribuídas em 40 endereços em um complexo de sete edifícios e dez torres na região dos Campos Elíseos. A iniciativa prevê a instalação de cerca de 22 mil servidores, além de teatro, auditórios, salas multiuso, novo terminal de ônibus e ações de requalificação urbana e restauração de imóveis históricos.
Projeto do Novo Centro
O Novo Centro Administrativo Campos Elíseos é um projeto do Governo de São Paulo para concentrar, na região central da capital, o gabinete do governador, secretarias e órgãos estaduais hoje distribuídos em mais de 40 endereços. A PPP foi leiloada em 26 de fevereiro de 2026 e vencida pelo consórcio MEZ-RZK Novo Centro, com investimento estimado em R$ 6 bilhões para a construção de sete edifícios e dez torres, com capacidade para cerca de 22 mil servidores.
“Nós precisávamos fazer uma intervenção urbana para o setor administrativo e uma intervenção humana, que é a recondução dessas pessoas, principalmente de baixa renda, para o acolhimento necessário e para garantir dignidade a eles”, disse Guilherme Afif Domingos, Secretário Extraordinário de Projetos Estratégicos de São Paulo, presente na reunião. “Esse trabalho se deu numa brilhante atuação com entrosamento entre Estado e prefeitura. Se não houvesse entrosamento, nós não atingiríamos metade disso. Estamos aqui trabalhando em prol da comunidade e principalmente dos mais carentes.”
Além de modernizar a gestão pública e reduzir custos administrativos, o complexo prevê novo terminal de ônibus no lugar do atual Terminal Princesa Isabel, espaços de convivência, teatro, auditórios, áreas de comércio e serviços, certificação ambiental LEED Gold e restauração de 17 imóveis tombados, em uma iniciativa associada à requalificação urbana, histórica e econômica dos Campos Elíseos.